Indicado ao Globo de Ouro e concorrente ao Oscar na categoria melhor atriz, o longa é uma
alegoria do empreendedorismo — feminino, claro!

 

Se você digitar nos buscadores, vai encontrar críticas negativas. Dizem que o roteiro é truncado, a trama previsível, ou que só a atriz salva. Sugiro ignorar e assistir de mente aberta. Por mais que o filme gire em torno da história real de uma norte-americana, com todo o “way of life” típico daquele país, se você é mãe e é também — ou já foi — empreendedora, não tem como não se identificar em várias situações ali mostradas. Sim, o filme fala sobre mulheres e, infelizmente, talvez somente as mulheres consigam ser tocadas por ele.

Quando o empreender dá certo para mulheres, costuma ser considerado algo missionário. Aliás, essa comparação também é grosseiramente usada para se referir a mulheres professoras competentes, já que a imensa maioria de profissionais da área de educação é feminina. Por que será que batalhar por aquilo que se acredita, passando por incontáveis rejeições, descrédito e falta de reconhecimento muitas vezes da própria família, é simplesmente taxado de função divina quando funciona? Ou ainda, como história de sucesso de mulher “mal resolvida”?

Com toda a carga secular da sociedade patriarcal que nos rodeia, independentemente do país em que vivemos, algumas de nós mulheres se arriscam a romper o padrão estabelecido para buscar um sonho. Sonho este de seguir uma determinada carreira, de aliar retorno financeiro com satisfação profissional ou até de viver com mais qualidade e flexibilidade. Um caminho árduo e nem sempre certeiro, recheado de avanço e retrocesso em curtos intervalos de tempo. “Mas porque você largou aquele emprego? Ganhava tão bem!” é uma das frases enfrentadas na jornada feminina de tentar mudar o modelo “mulher-de-sucesso-é-executiva-de-multinacional” . Outra frase bem típica é “Mas você viaja muito, quem fica com as crianças? Seu marido te ajuda?”, essa costuma vir carregada de expressões e olhares de reprovação caso o retorno financeiro não seja evidente ou imediato. E tem também aquela bem cruel “Ah, claro, trabalhando tanto assim, difícil arranjar marido!”, reforçando o estereótipo da mulher sempre submissa e esposa de alguém como sendo a meta de vida.

No longa, o diretor trata do assunto do empreendedorismo com muita alegoria e confusão nas cenas, exatamente porque a vida anda em desalinho assim. Notei sensibilidade dele com o universo empreendedor feminino, exercido não apenas no trabalho, mas também na maternidade e no cuidado com entes familiares nem sempre merecedores de tamanha dedicação. A protagonista tem muito o que fazer e todos dependem dela e ela está lá, firme, presente, enfrentando os percalços, mas sem reprimir os conflitos internos e toda a vontade natural de xingar ou sumir do mapa que todas nós temos invariavelmente. Um alívio ver isso na telona!

Caricatura dos tempos atuais do universo emergente das startups, o diálogo travado com a então investidora e as quatro perguntas fundamentais, ilustra com maestria toda a tensão que a gente sente quando sabe que tem uma ideia boa, que vai dar resultado, mas tem que provar isso em sei lá quantos poucos minutos sem deixar a peteca cair. “Pitch” é o nome da tortura. E nossa, quantos “nãos” vão para a nossa coleção!É bacana ver também que, apesar de tantos contratempos, a personagem inventora consegue se manter fiel à pessoa humana que ela é, não se deslumbrando com o figurino ideal da TV ou a fama momentânea que o show business pode trazer. O filme chegou a ser apontado como meraautoajuda por alguns críticos, mas foi indicado ao Globo de Ouro e Jennifer Lawrence concorre ao Oscar como melhor atriz. A trama gira em torno da história real da empresária Joy Mangano, mãe de dois filhos, divorciada, que trabalhava dentro e fora de casa e ainda carregava toda a família nas costas. Mesmo nessas circunstâncias, desde criança, Joy já conseguia olhar além de seu cotidiano previsível e criar oportunidades.

 

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